OBSESSÃO
Carmo Vasconcelos
Quem me dera ser lenho, musgo ou seixo
Impassível, sem dor, sem dependência
Do conturbado mundo ser o eixo
Erecto, sem tremor, sem turbulência
Quem me dera ser astro, chuva ou vento
Ignorante de amor, da sua ardência
Bastar-me o céu azul como alimento
Imune a esta fome sem clemência
Fosse eu um vegetal em apatia
Insensível à dor da solidão
Que decerto o amor não buscaria...
Fosse eu despida desta obsessão
Que jamais para ele eu correria
Fosse eu oca de sangue e coração!
***
Lisboa/Portugal
1º Prémio "Soneto"/ano 1999
Concurso Literário do Cenáculo Marquesa de Valverde
***
In E-Book “Sonetos Escolhidos”
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A PALAVRA
Carmo Vasconcelos
Seja escrita ou falada
seja rimada ou cantada
a palavra é milagrosa
tão milagrosa que a gente
a manipula e a sente
como arma poderosa
Ela é desprezo e amor
estrume, pólen e flor
estrela, lama e chão
pacifismo, violência
pornografia, inocência
praga e também oração
É perfídia, honradez
abnegação, mesquinhez
raiva, beijo e ciúme
também é água da fonte
maré, abismo e ponte
degelo, paixão e lume
Por vezes é alimento
é sol, chuva, fermento
que sustenta e aduba
por outras é sofrimento
luxúria, vício, tormento
e açoite que derruba
Com ela o mundo se espanta
por ser satânica e santa
bálsamo e droga infecta
guilhotina e perdão
liberdade e prisão
vómito de boca abjecta
Pode ser batalha ou trégua
conforme a bitola e régua
do espelho da consciência
também é rosa e espinho
cardo, jasmim e carinho
escravidão, independência
Ela é freira, meretriz
pântano, pomar, raiz
pureza e poluição
é profana e sagrada
afago e chicotada
desavença e comunhão
Mas para mim é um fogo
e um mar onde me afogo
eternidade e momento
êxtase, estupefacção
poema, contemplação
bailado do pensamento
E para todo o Poeta
a palavra é a dilecta
e eterna amante fatal
e o Poeta quando parte
só deixa como estandarte
a sua amante imortal!
***
Lisboa-Portugal / 1997
*
In E-Book “Luas e Marés”
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A BELEZA DO POEMA
Carmo Vasconcelos
Poema é masculino, como Homem
Não precisa de jóia ou atavio
Se basta de nobreza como um rio
Para que com’ amante logo o tomem
Poema não requer traje de gala
Pode até ter andrajo de mendigo
É sua alma rosa ou índigo
Que tinge de beleza a sua fala
Humilde, sem vaidade, vê-se ao espelho
Nos olhos vidrados de quem o lê
E é deles que recebe seu conselho
Se esse olhar o afaga... ele crê
Que ao mundo vale a pena se mostrar
Sem vergonha das vestes que usar
***
Lisboa-Portugal
In E-Book “Sonetos Escolhidos”
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. SONETO - A BELEZA DO POEM...